Do K-pop à Miu Miu: como a influência oriental está mudando o olhar da moda

Por Simone Carvalho Couto de Magalhães Ferraz

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Síntese Deste Conteúdo

O mercado de óculos passa por mudanças, com modelos ovais, pequenos e estreitos ganhando destaque, refletindo uma transformação cultural mais ampla. A influência asiática, especialmente coreana, ultrapassa fronteiras, impactando moda, beleza e comportamento globalmente. Artistas de K-pop e marcas asiáticas como a Gentle Monster se tornam referências de moda, influenciando até celebridades ocidentais como Gisele Bündchen. Essa estética transcende gerações, mostrando que não se restringe apenas à Geração Z.

Tenho visto uma mudança interessante no mercado de óculos.

Modelos ovais, pequenos e estreitos, metais delicados, armações sem aro ou quase invisíveis ganharam força nas coleções, nas redes sociais e, principalmente, no desejo das consumidoras mais conectadas.

A Miu Miu é hoje uma das marcas que traduz muito bem esse movimento.

Mas, para mim, há algo maior por trás desses formatos: não estamos falando apenas de uma tendência de eyewear. Estamos assistindo a uma mudança de repertório cultural.

O eixo de influência se ampliou

Paris, Milão, Londres e Nova York continuam fundamentais para a moda. Mas hoje dividem a construção do desejo com Seul, Tóquio e outros polos asiáticos.

A Hallyu - a onda cultural coreana - ultrapassou a música. K-pop, K-dramas, cinema, beleza, skincare, gastronomia e moda criaram um universo estético que influencia milhões de consumidores.

E o Brasil está profundamente conectado a esse fenômeno. Estudos já posicionaram o país entre os maiores mercados consumidores de K-pop do mundo, enquanto pesquisas brasileiras vêm analisando a influência de K-pop e K-dramas na construção de identidade de seus fãs.

Para quem trabalha com produto, isso importa muito.

Quando muda aquilo que absorvemos, assistimos, ouvimos e seguimos, muda também aquilo que aprendemos a desejar.

Da tela para o rosto

Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters) é um excelente exemplo.

O fenômeno ultrapassou o entretenimento e chegou à moda, beleza, produtos licenciados e comportamento. Suas personagens apresentam uma estética que combina referências coreanas, futurismo, atitude, cor e identidade.

Mas não são apenas personagens.

Artistas de K-pop transformaram-se em referências globais de moda, e marcas asiáticas como a Gentle Monster ajudaram a transformar os óculos em objeto de desejo e expressão cultural. A colaboração da marca com Jennie, do BLACKPINK, é um exemplo claro dessa conexão entre celebridade, entretenimento, moda e produto.

E essa influência já ultrapassou completamente as fronteiras asiáticas.

Ela aparece também no styling de celebridades ocidentais e brasileiras. Gisele Bündchen, por exemplo, já aparece usando os pequenos óculos ovais, mostrando como uma estética associada às gerações mais jovens e à cultura fashion asiática pode chegar a uma mulher madura, sofisticada e absolutamente global.

Isso é especialmente interessante para o mercado brasileiro.

Porque mostra que não estamos necessariamente diante de uma tendência restrita à Gen Z.

Estamos diante de um código estético que começa a atravessar gerações.

E onde entra a Miu Miu?

Nas buscas brasileiras já encontramos com facilidade os pequenos modelos ovais da Miu Miu - solares e de grau.

Eu não diria que a Miu Miu está simplesmente reproduzindo uma estética coreana. Moda é muito mais complexa do que isso.

O que vejo é uma convergência extremamente interessante:

Y2K + estética asiática + cultura digital + luxo europeu + celebridades + nostalgia.

A Miu Miu consegue traduzir esses códigos em um produto de luxo europeu que conversa perfeitamente com o repertório visual dessa nova consumidora global.

O que isso significa para quem desenvolve coleções?

Aqui está, para mim, a questão mais importante.

Quando desenvolvemos uma coleção, olhar para os best-sellers é fundamental. Mas o best-seller nos conta principalmente o que já aconteceu.

Para tentar entender o próximo desejo, precisamos observar também cultura e comportamento.

A consumidora talvez nunca entre em uma ótica dizendo:

"Quero um óculos inspirado na estética coreana."

Ela provavelmente dirá:

"Quero um menor."

"Tem um oval?"

"Quero alguma coisa mais delicada."

"Tem sem aro?"

"Quero algo diferente."

E é justamente aí que a cultura começa a virar negócio.

A tendência cultural chega primeiro como referência. Depois se transforma em desejo. E finalmente aparece nos números de venda.

E a consumidora brasileira?

Ela não simplesmente reproduz Seul, Milão ou Paris.

Ela traduz.

Nossa diversidade de rostos, tons de pele, estilos e gerações transforma essas referências.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante para quem desenvolve eyewear hoje não seja apenas:

"Qual formato está vendendo?"

Mas também:

"O que essa mulher está assistindo, seguindo e desejando?"

Porque antes de escolhermos um óculos, escolhemos - muitas vezes sem perceber - a imagem que queremos projetar de nós mesmas.

É por isso que continuo acreditando que óculos são muito mais do que produto.

Óculos são linguagem.

E essa linguagem nunca foi tão global.

Fonte: Simone Ferraz

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