Tenho visto uma mudança interessante no mercado de óculos.
Modelos ovais, pequenos e estreitos, metais delicados, armações sem aro ou quase invisíveis ganharam força nas coleções, nas redes sociais e, principalmente, no desejo das consumidoras mais conectadas.
A Miu Miu é hoje uma das marcas que traduz muito bem esse movimento.
Mas, para mim, há algo maior por trás desses formatos: não estamos falando apenas de uma tendência de eyewear. Estamos assistindo a uma mudança de repertório cultural.
O eixo de influência se ampliou
Paris, Milão, Londres e Nova York continuam fundamentais para a moda. Mas hoje dividem a construção do desejo com Seul, Tóquio e outros polos asiáticos.
A Hallyu - a onda cultural coreana - ultrapassou a música. K-pop, K-dramas, cinema, beleza, skincare, gastronomia e moda criaram um universo estético que influencia milhões de consumidores.
E o Brasil está profundamente conectado a esse fenômeno. Estudos já posicionaram o país entre os maiores mercados consumidores de K-pop do mundo, enquanto pesquisas brasileiras vêm analisando a influência de K-pop e K-dramas na construção de identidade de seus fãs.
Para quem trabalha com produto, isso importa muito.
Quando muda aquilo que absorvemos, assistimos, ouvimos e seguimos, muda também aquilo que aprendemos a desejar.
Da tela para o rosto
Guerreiras do K-Pop (KPop Demon Hunters) é um excelente exemplo.
O fenômeno ultrapassou o entretenimento e chegou à moda, beleza, produtos licenciados e comportamento. Suas personagens apresentam uma estética que combina referências coreanas, futurismo, atitude, cor e identidade.
Mas não são apenas personagens.
Artistas de K-pop transformaram-se em referências globais de moda, e marcas asiáticas como a Gentle Monster ajudaram a transformar os óculos em objeto de desejo e expressão cultural. A colaboração da marca com Jennie, do BLACKPINK, é um exemplo claro dessa conexão entre celebridade, entretenimento, moda e produto.
E essa influência já ultrapassou completamente as fronteiras asiáticas.
Ela aparece também no styling de celebridades ocidentais e brasileiras. Gisele Bündchen, por exemplo, já aparece usando os pequenos óculos ovais, mostrando como uma estética associada às gerações mais jovens e à cultura fashion asiática pode chegar a uma mulher madura, sofisticada e absolutamente global.
Isso é especialmente interessante para o mercado brasileiro.
Porque mostra que não estamos necessariamente diante de uma tendência restrita à Gen Z.
Estamos diante de um código estético que começa a atravessar gerações.
E onde entra a Miu Miu?
Nas buscas brasileiras já encontramos com facilidade os pequenos modelos ovais da Miu Miu - solares e de grau.
Eu não diria que a Miu Miu está simplesmente reproduzindo uma estética coreana. Moda é muito mais complexa do que isso.
O que vejo é uma convergência extremamente interessante:
Y2K + estética asiática + cultura digital + luxo europeu + celebridades + nostalgia.
A Miu Miu consegue traduzir esses códigos em um produto de luxo europeu que conversa perfeitamente com o repertório visual dessa nova consumidora global.
O que isso significa para quem desenvolve coleções?
Aqui está, para mim, a questão mais importante.
Quando desenvolvemos uma coleção, olhar para os best-sellers é fundamental. Mas o best-seller nos conta principalmente o que já aconteceu.
Para tentar entender o próximo desejo, precisamos observar também cultura e comportamento.
A consumidora talvez nunca entre em uma ótica dizendo:
"Quero um óculos inspirado na estética coreana."
Ela provavelmente dirá:
"Quero um menor."
"Tem um oval?"
"Quero alguma coisa mais delicada."
"Tem sem aro?"
"Quero algo diferente."
E é justamente aí que a cultura começa a virar negócio.
A tendência cultural chega primeiro como referência. Depois se transforma em desejo. E finalmente aparece nos números de venda.
E a consumidora brasileira?
Ela não simplesmente reproduz Seul, Milão ou Paris.
Ela traduz.
Nossa diversidade de rostos, tons de pele, estilos e gerações transforma essas referências.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante para quem desenvolve eyewear hoje não seja apenas:
"Qual formato está vendendo?"
Mas também:
"O que essa mulher está assistindo, seguindo e desejando?"
Porque antes de escolhermos um óculos, escolhemos - muitas vezes sem perceber - a imagem que queremos projetar de nós mesmas.
É por isso que continuo acreditando que óculos são muito mais do que produto.
Óculos são linguagem.
E essa linguagem nunca foi tão global.