Muito tem se falado no meio acadêmico e entre estudiosos da área a respeito do controle (até mesmo da diminuição) da elevação progressiva da miopia. Nos últimos anos, com o consumo desenfreado dos meios eletrônicos, especialmente entre as crianças ali, no início do seu desenvolvimento, a miopia tem se tornado uma pandemia, tornando-se um dos focos da saúde pública. De acordo com Yeo, et al (2016), a Organização Mundial de Saúde prevê que mais de 1 quarto da população mundial será míope até 2020, o que é preocupante em virtude de algumas condições assoladoras que podem acompanhar esta ametropia.
Fig.1. Aumento da porcentagem da miopia em 40 anos.
A miopia, de modo direto, diminui a visão de longe, causando um encurtamento do ponto remoto (só enxerga bem de perto, em determinadas distâncias). O que leva ao surgimento desta ametropia pode ser um aumento do eixo antero-posterior do olho (comprimento axial), o aumento da curvatura corneana, ou alterações acomodativas, sendo que uma das maiores preocupações são as alterações na estrutura do olho, retinopatias, maculopatias, descolamento de retina, diminuição da visão noturna, etc. O surgimento da miopia pode estar ligado a causas hereditárias, genéticas, medicamentosas, patológicas e a fatores ambientais.
Fig. 2. Estrutura de um olho emétrope e de um míope.
Naturalmente, as crianças nascem com o olho menor, o que condiz com a hipermetropia fisiológica e com o crescimento, passam pelo processo de emetropização, que leva ao desaparecimento da hipermetropia com o passar da idade. O fato de muito cedo a crianças serem submetidas ao uso excessivo da visão de perto, tem ocasionado a aceleração do processo de emetropização, fazendo com que a hipermetropia fisiológica evolua para uma miopia baixa ou moderada. Efetivamente o comprimento axial do olho ainda é passível de modificação independente do processo de emetropização, ou seja, ele pode continuar crescendo em pequenas porcentagens até a fase adulta.
Fatores que desencadeiam a progressão da miopia estão ligados a capacidade ocular de se ajustar de acordo com o ambiente. Vários estudos foram realizados para demonstrar como o globo ocular modifica seu tamanho de acordo com a demanda de trabalho visual. Uma das justificativas desse ajuste é o feedback gerado pela acomodação ocular (ajuste de foco da imagem retiniana).
A acomodação é um sistema controlado pelo músculo ciliar (composto pelo músculo de Muller e de Riolan) através do sistema nervoso autônomo simpático e parassimpático, que juntamente com as zônulas, suspendem uma das principais estruturas do olho, o cristalino e este, mediante o estímulo muscular, se ajusta para enfocar a imagem na retina.
Pacientes não míopes ou míopes baixos, mediante o trabalho excessivo da visão de perto (uso de smartfones, tablets, notebooks, etc), tendem a sobrecarregar o sistema acomodativo, o que acaba causando um espasmo do músculo de Muller, este espasmo leva a um não relaxamento do cristalino, acarretando o surgimento de uma pseudomiopia (ou elevação de uma baixa miopia). Como consequência, o paciente pode acabar sendo hipercorrigido, levando o cruzamento dos raios do ponto focal para "depois da retina" que, com o passar do tempo, fará com que o tamanho axial do olho se ajuste, levando o paciente a ter uma miopia verdadeira.
Por outro lado, os míopes "verdadeiros", tendem a ter uma acomodação subestimada, pois estes acabam utilizando mecanismos que minimizam a utilização da acomodação, retirando os óculos para ver de perto, fazendo com que o LAG acomodativo (retraso de acomodação) seja maior, ou seja, também levando o cruzamento dos raios do ponto focal para "depois da retina", o que acarreta, mais uma vez, ao aumento do tamanho axial do olho, podendo induzir a progressão miópica.
O que justifica o ajuste do globo ocular são fatores de crescimento localizados no epitélio pigmentar da retina (EPR), que, diante do feedback da acomodação, ajustam a coroide e consequentemente toda a parte posterior do olho em direção ao ponto focal.
Fig. 3. Lag acomodativo
Fig. 4. Aumento progressivo do LAG Com o aumento da miopia
Fonte: http://www.pointsdevue.com/article/myopia-and-effective-management-solutions
Equipes internacionais de pesquisas têm fomentado o desenvolvimento de terapêuticas para o controle da progressão da miopia. Terapia visual, ortoqueratologia, uso de medicamentos, uso de lentes específicas para tal finalidade, são algumas das opções na tentativa de barrar a evolução desta ametropia.
No caso da terapia visual, o objetivo é relaxar a acomodação (no caso de espasmo) ou estimular a acomodação (no caso de insuficiência), minimizando os efeitos evolutivos da miopia. Procurar um profissional que faça um estudo detalhado do sistema visual é o mais indicado para que se possa eleger a melhor conduta em casos de aumento constante da miopia.
Profa. Rebeca Uchoa Saraiva
Téc. Em Óptica e Optometria
Graduada em Optometria
Esp. em Neuro-Optometria com Ênfase em Reabilitação Visual
Professora da Faculdade Ratio - Fortaleza/CE
Professora de Pós-Graduação de Ortóptica e Terapia Visual - ESGV
Diretora do Instituto de Ensino em Saúde Visual Primária - IESVP
Vice-presidente da CROO/CE