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O Conóide de Sturm e o Cilindro Cruzado Astigmatimo

Artigo Vilmário Antonio Guitel para Opticanet

É da maior importância o entendimento do Conóide de Sturm (J. C. Sturm, 1663-1703) na interpretação dos astigmatismos e do acerto que se pode obter na indicação do eixo e do valor da prescrição óptica. Sobre estes importantes conhecimentos da refração ocular, é sugerida a literatura de Aderbal de Albuquerque Alves (2000), Refração, que descreve em minúcias, no capítulo 25, os procedimentos da técnica do cilindro cruzado.
Na literatura do Professor Adelino Miranda, (2009), ele relata que entre os transtornos das ametropias, existem a miopia e a hipermetropia, ambas provocando o foco fora da retina, antes ou depois desta. Enquanto que, o astigmatismo, apresenta forças dióptricas em diferentes meridianos de um mesmo olho, caracterizando uma ametropia formado por duas forças esféricas, que estão dispostas perpendicularmente e que podem se localizar tanto antes, como atrás da retina. 

Como o astigmatismo sempre possui duas forças, do mesmo modo também tem duas distâncias focais. Com essa disposição óptica, a imagem não se forma em um ponto, mas em inúmeros pontos entre as duas distâncias focais de um mesmo olho. Resulta daí o nome "astigmatismo", que significa ausência de ponto ou de foco

A distância compreendido entre os dois pontos focais, é denominada Conóide de Sturm e resulta em um astigmatismo. 

O astigmatismo é considerado normal (ou não observável) quando as curvas da córnea possuem diferenças de até -0.75. Por exemplo: em uma ceratometria com curvas de 43.00/43.75. Neste caso, como o ATC (Astigmatismo Total de Córnea) se encontra dentro do parâmetro de normalidade, é considerado como sendo um astigmatismo "fisiológico" e não caracteriza necessidade de correção. 

Por outro lado, neste mesmo olho, podem existir duas curvas diferentes no cristalino, provocando um astigmatismo da "lente", denominado "astigmatismo residual". Este exige correção. Por isto, o astigmatismo fisiológico, estará dependente sempre, além das curvas da córnea, também do acerto das curvas do cristalino.  Conhecimento este, importante na adaptação de lentes de contato, porque no caso, o profissional deverá obedecer à regra diferenciada para a determinação e localização da "curva base" na adaptação da LC.  

Outra possibilidade de astigmatismo residual, muito rara, é a formação de duas curvas diferentes na face posterior da córnea, o que também poderá ocasionar um astigmatismo residual e a necessidade de eventual "curva de base posterior" ou de "face interna" na adaptação de lentes de contato. 

Como um olho com astigmatismo não possui um foco, as deficiências ou diferenças astigmáticas constituem transtorno sério aos seus portadores, visto que a acomodação e a desacomodação nunca encontram focalização precisa. Quando o sistema ocular procura focalizar em um meridiano, o outro sai de foco. Esta situação pode causar além da dificuldade na visão, desconforto, dor de cabeça, lacrimejamento, sono e canseira em astigmata não corrigido, mesmo em astigmatismos com pequena dioptria, sobretudo quando o eixo for contra à regra ou oblíquo.

É importante entender que o valor expresso nas prescrições para a correção do astigmatismo, não correspondem a uma "força dióptrica". Por isto não se pode afirmar que exista lente somente com "força cilíndrica", ou só para corrigir astigmatismo. O valor expresso para a correção do astigmatismo significa somente a correção da diferença existente entre os dois focos do Conóide de Sturm.
 
Pode surgir a pergunta:

E quando aparece prescrição de plano/cilindro? Ex: plano -1.00X180.

Não representa uma correção só para astigmatismo? 

Não! Ora, basta fazer a transposição para se obter o valor real dos dois meridianos. No caso, são observados dois valores esféricos dispostos perpendicularmente. Na prescrição do exemplo, existe um valor esférico igual ao do cilindro, com esta configuração: -1.00 +1.00 X 90, comprovando-se, desta forma, a existência de dois focos, sendo que o valor 1.00, corresponde tão somente à correção do intervalo focal do Conóide de Sturm.

Talvez valha a pena recordar que um valor esférico resulta sempre da diferença de curvaturas em faces opostas de uma lente, enquanto que o poder do cilíndrico resulta da diferença de curvaturas de uma mesma superfície. Por isto, o astigmatismo se apresenta como um fenômeno diferenciado, não existindo isoladamente, mas sempre como solução e fator de qualidade na resolução de uma miopia ou de uma hipermetropia, configurado por forças diferentes em cada meridiano, mesmo que eventualmente, um destes meridianos apresente emetropia. A condição provoca o Conóide, por existirem dois focos independentes que carecem de correção. Acrescente-se que, se houver apenas um foco fora da retina, a ametropia jamais poderá ser caracterizada como astigmatismo. Ou é miopia ou hipermetropia. O astigmatismo requer que existam dois focos ocasionados por duas curvas diferentes provocadas pela distância entre os focos de dois meridianos no mesmo olho.

O Optometrista, normalmente busca definir com precisão a direção de eixo e do poder do valor do astigmatismo. Só assim obterá qualidade no acerto da visão de seu examinado. Para isto, será necessário definir entre 36 possibilidades de direção de eixo em cada olho, sendo, portanto, complexa a determinação, tanto do eixo, como do valor da correção astigmática de cada olho já que existirão no total 72 possíveis localizações. Desde que o Dial seja dividido de 5 em 5º. Mesmo após definir com precisão o eixo do cilindro, ainda assim haverá necessidade de definir com acerto a questão do "poder" do valor astigmático.

Muitos estudiosos se esmeraram em conseguir formas para encontrar solução na prescrição exata dos astigmatismos, como Copeland com as técnicas de retinoscopia, mas quem aperfeiçoou as técnicas foram Dennet (1885) e finalmente, Jackson (1887), de onde se obteve o importante cilindro de Jackson ou simplesmente Cilindro Cruzado. É instrumento dos mais valiosos para aqueles que dominam este procedimento. O cilindro cruzado, fabricado com valores de 0.25 ou 0.50, embora seja uma ferramenta bastante simples, apresenta ao mesmo tempo, certa complexidade na sua utilização. Contudo, com técnica, experiência, prática e um pouco de boa vontade, torna-se um equipamento dos mais valiosos na prática optométrica, pois possibilita segurança na determinação tanto do eixo como do valor da correção do astigmatismo.

Contudo, os resultados sempre dependem, por parte do examinado, de sua atenção, colaboração e interesse. 
E por parte do examinador, conhecimento.  Isto irá permitir respostas adequadas às perguntas formuladas, possibilitando ao Optometrista uma perfeita harmonia da correção e indicação das melhores lentes. 
 
Professor Vilmario Antonio Guitel 
Bacharel em Optometria
Optometrista, OD - Regional SP CROOSP 02.003
 
Técnico em Óptica e Lentes de Contato - SENAC SP
Neuroptometrista - Instituto Thea, Florianópolis SC
Pós Graduado Alta Optometria - Optometria Pediátrica - UNC - SC
Pós Graduado Magistério do Curso Superior - UNC - SC
Especialista em Optometria Sintônica - Inst. Thea, Florianópolis SC 
Optometrista Comportamental - Inst. Thea, Florianópolis SC
 
Colunista Opticanet - Categoria: Colunas & Artigos
Fonte: Vilmário Antonio Guitel

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