Doença degenerativa progressiva da córnea, o ceratocone ocorre em 1 a cada 20 mil pessoas e sua evolução se dá geralmente até os 35 anos. É uma doença bilateral, normalmente atingindo mais um olho do que o outro. Apesar das causas do ceratocone ainda não serem totalmente determinadas, seu surgimento está associado a processos alérgicos, ao hábito de coçar os olhos constantemente e também à hereditariedade. "O problema afeta o formato e a espessura da córnea que, como consequência, gera imagens distorcidas e pode provocar o aumento do astigmatismo e da miopia. Visão borrada, tanto para longe quanto para perto, dores de cabeça, halos em torno das luzes, fotofobia e coceira também são alguns sintomas do ceratocone", explica Guilherme Rocha, médico referência em Ceratocone do Hospital Oftalmológico de Brasília (HOB).
O diagnóstico é feito com base nas características clínicas e exames complementares de topografia e tomografia de córnea. Constatado o problema, um tratamento adequado deve ser iniciado. Os dois objetivos principais do tratamento são a melhora da visão do paciente e, nos casos em que a doença está evoluindo, diminuir ou parar esta progressão. Para melhora da visão, é inicialmente recomendada a prescrição de óculos. Quando esta opção já não é mais eficiente, passa-se para as lentes de contato. As mais indicadas são as rígidas gás-permeáveis, corneanas ou esclerais, que asseguram acuidade visual mais satisfatória, mas não são capazes de controlar a piora da doença.
Nesses casos é recomendado a realização do crosslinking do colágeno corneano, procedimento cirúrgico que resulta em uma maior resistência mecânica da córnea, através de fortalecimento do colágeno. Nos casos em que a visão com óculos não é satisfatória e o uso de lentes de contato não é suportada, está indicado o implante de anel corneano, uma órtese que permite a regularização da superfície corneana, com melhora da visão corrigida pelos óculos e possibilidade do uso de lentes de contato gelatinosas. Quando nenhuma destas alternativas alcança resultado satisfatório ou a doença está muito evoluída, o transplante de córnea está indicado. "O Anel de Ferrara é uma cirurgia que traz ótimos resultados e reabilitação visual do paciente. É indicado para portador de ceratocone mal adaptados a óculos e lentes de contato.", ressalta o oftalmologista.
Como cada paciente é um caso único, o Anel de Ferrara tem diferentes tamanhos de arco e espessuras que garantem um resultado mais eficiente e personalizado para cada necessidade. Entretanto, de acordo com o Dr. Guilherme, o implante de um anel de 320 graus de arco, conhecido como arco longo, vem conseguindo respostas surpreendentes, superiores às observadas até agora em muitos pacientes. O HOB, através do Dr. Guilherme Rocha, foi escolhido pelo Dr. Paulo Ferrara, oftalmologista desenvolvedor desta cirurgia na década de 90, para participar do desenvolvimento e utilização deste novo anel. "O anel de arco longo proporciona uma diminuição na curvatura e um efeito de aplanamento de regularização muito maior, o que implica que, ao final, o paciente que utiliza esse recurso saia enxergando bem melhor", explicou o oftalmologista, que já realizou 30 implantes desses entre maio e outubro deste ano.
Como continuação do projeto de uso destes novos anéis, aconteceu um encontro de cerca de 40 oftalmologistas especialistas em ceratocone de todo Brasil, no Ferrara Meeting 320 - no último dia 03/11, no Espaço de Eventos Unimed, em Belo Horizonte. Neste, o Dr. Guilherme Rocha foi um dos escolhidos para apresentar os resultados alcançados nas cirurgias realizadas no HOB, além de moderar a mesa de discussão em parte do evento. O Meeting precedeu o 2º Congresso Brasileiro de Ceratocone, dias 04 e 05 de novembro, encontro no qual tudo que abrange o ceratocone foi amplamente discutido por especialistas nacionais e internacionais da área e, com certeza, os anéis de arco longo foram a estrela do evento. Neste, o Dr. Guilherme foi responsável por ministrar duas palestras e apresentar um caso clínico.
Guilherme Rocha ressalta, porém, que nem todos os pacientes estão aptos a implantar o Anel de Ferrara. "É preciso verificar se a córnea é transparente, com pouca ou nenhuma estria ou cicatriz; se há evolução franca do ceratocone, se o astigmatismo é alto, se as córneas não são muito finas... E só através de exames pré-operatórios bem específicos que podemos concluir qual o melhor tratamento para o paciente", explicou. "Entretanto, quem estiver qualificado e tiver a estrutura da córnea preservada, pode ser submetido ao procedimento. Importante lembrar que a cirurgia não apresenta risco de rejeição e a grande maioria dos operados tem rápida reintegração às suas atividades rotineiras, ainda mais que todas as cirurgias do HOB são realizadas com auxílio de um laser, que aumenta a segurança e o conforto do paciente", complementou o oftalmologista.