Existe uma pergunta aparentemente simples que pode abrir uma conversa enorme: do que são feitos os óculos? Se você pensou em acetato, metal ou algum polímero, acertou. Mas não completamente. Antes de chegar ao rosto do consumidor, um óculos percorre uma trajetória que envolve matéria-prima, tecnologia, engenharia, design, processos industriais, artesanato, inovação e, cada vez mais, inteligência e criatividade. É por isso que gosto de olhar para a evolução dos óculos não apenas como uma evolução de matérias primas, processos e tecnológica, mas como uma verdadeira R-Evolução: uma transformação que acontece quando algo conhecido muda de significado. E os óculos estão mudando. Muito.
Para entender essa transformação, precisamos voltar no tempo. Os primeiros óculos foram produzidos com materiais naturais como couro, madeira, osso, chifre e casco de tartaruga, utilizando aquilo que estava disponível e que podia ser trabalhado artesanalmente. Depois vieram novos materiais e novas possibilidades de produção. O surgimento dos celuloides representou uma transformação importante na fabricação das armações e, posteriormente, o acetato de celulose ampliou ainda mais as possibilidades de design, permitindo trabalhar cores, transparências, padrões, laminações, espessuras e acabamentos que ajudaram a transformar os óculos em objetos de desejo. É justamente nesse momento que encontramos um dos grandes protagonistas da indústria eyewear: o acetato.
O acetato de celulose tornou-se um dos materiais mais utilizados na fabricação de armações e conquistou espaço por reunir características técnicas e estéticas muito interessantes. Sua capacidade de receber diferentes cores, padrões, transparências, espessuras e acabamentos abriu um universo criativo para designers, lunetiers e fabricantes. Mas existe uma provocação que considero fundamental: nem todo acetato é igual. E mais importante ainda: um bom acetato não faz, sozinho, um bom óculos. Quando falamos de acetato de celulose para eyewear, a italiana Mazzucchelli é, sem dúvida, a maior referência, pois se tornou uma marca reconhecida mundialmente e com uma história profundamente ligada ao desenvolvimento desse material. Mas dizer simplesmente que "Mazzucchelli é a única" seria reduzir uma questão muito mais complexa. A qualidade de uma armação depende da combinação entre matéria-prima, design, engenharia, processo de fabricação, acabamento, montagem e controle de qualidade. Uma placa excelente pode resultar em uma armação ruim se o projeto, a colagem, a usinagem, as ferragens ou o acabamento não estiverem à altura da matéria-prima. Por isso, gosto de resumir assim: a matéria-prima pode ser de alta qualidade, mas é o conjunto que constrói a excelência.
Mas é importante lembrar que o mundo do acetato não termina na Itália. Existem diferentes origens, diferentes propostas e diferentes níveis de produção. A China, por exemplo, tornou-se uma grande potência na fabricação de acetatos para o mercado eyewear, especialmente em produções de maior escala, com ampla variedade de cores e padrões e uma relação muito competitiva entre volume e preço. É um acetato que atende muito bem à lógica da produção em massa e ajuda a tornar o produto mais acessível a diferentes mercados. Já o Japão segue por uma estrada quase oposta: volumes menores, processos mais cuidadosos, seleção criteriosa de matérias-primas e uma forte cultura de precisão e acabamento. São propostas diferentes, com posicionamentos diferentes e, muitas vezes, experiências diferentes no produto final. E a França também merece seu lugar nessa conversa. O país, que é historicamente uma das grandes referências mundiais da óptica, possui produção de acetatos de boa qualidade, muito associada ao atendimento de fabricantes e marcas locais e a uma tradição europeia de desenvolvimento de materiais e produtos. No fim das contas, não existe uma bandeira que marque e determine sozinha a qualidade. Existe uma combinação de matéria-prima, tecnologia, formulação, escala, projeto, fabricação e acabamento. E talvez essa seja uma das maiores lições quando falamos de acetato: não é simplesmente de onde ele vem, mas o que foi feito com ele e para que ele foi pensado.
E se durante muito tempo falar de materiais para óculos praticamente significava falar de acetato, hoje precisamos ampliar essa conversa. O universo dos materiais é muito maior. Temos diferentes metais e ligas, como aço inoxidável, monel, titânio, beta-titânio e alumínio, além de diferentes polímeros utilizados na construção de armações. Cada um apresenta características específicas de peso, resistência, flexibilidade, memória, estabilidade, acabamento, conforto e possibilidades construtivas. O titânio, por exemplo, ganhou enorme espaço no eyewear pela combinação de leveza, resistência, além da possibilidade de criar estruturas extremamente finas. Mas aqui também existe uma provocação importante: o titânio não é sinônimo automático de qualidade. Assim como acontece com o acetato, existe projeto, engenharia, processo, montagem e acabamento. O material é parte da equação, não é a equação inteira.
Quando falamos de polímeros, também precisamos abandonar algumas simplificações. "Plástico" é uma palavra ampla demais para explicar o universo dos materiais utilizados em armações. Existem diferentes famílias e formulações, como TR-90, nylon, poliamidas, propionato e outros polímeros de engenharia, cada um com propriedades específicas. Alguns podem favorecer flexibilidade, outros resistência, outros leveza e outros determinadas possibilidades de design ou processos produtivos. Mais importante do que decorar nomes é compreender a relação entre propriedade, aplicação e construção. O profissional óptico não precisa ser um engenheiro de materiais, mas precisa conhecer o suficiente para transformar informação técnica em argumento quando for apresentar e negociar óculos.
E existe ainda um universo que merece atenção especial: os materiais naturais e as novas possibilidades de materiais reciclados ou de origem biológica. Madeira, tecido, borra de café, bagaço de cana-de-açúcar e outras matérias-primas naturais podem trazer textura, origem, variação e singularidade. Quando isso acontece, o material deixa de ser apenas uma característica técnica e começa a carregar uma história. 
Quero abrir aqui um grande parêntese para contar a história sobre um novo material que surgiu do bagaço de cana-de-açúcar. O material que está sendo anunciado para o mercado como: LunettiBio.
Este material trata-se de uma chapa de bio material. Uma das mais novas matérias-primas para a fabricação de óculos, nascida no Brasil.
A LunettiBio - que um dia foi chamada por "Caiana", nasceu em uma palestra que fiz em  Bento Gonçalves, no ano passado.
Porque algumas grandes ideias e invenções não começam em um laboratório, em uma fábrica ou em uma sala de reuniões. Às vezes, elas começam em uma conversa. Neste caso, foi exatamente assim. Durante uma palestra sobre sustentabilidade na Ajorsul, em Bento Gonçalves, falando sobre materiais sustentáveis na fabricação de óculos, surgiu uma reflexão: e se aquilo que hoje chamamos de resíduo pudesse ganhar uma nova vida e se transformar em matéria-prima para criar óculos? 
A provocação ficou no ar, mas não ficou apenas no discurso. A ideia encontrou pessoas dispostas a transformá-la em realidade. João e Gi Primiano me chamaram para desenvolver o projeto e Andreia Zuqui para dar identidade à marca e, principalmente, conectar essa nova matéria-prima a quem sabe transformar uma chapa em algo muito maior: os lunetiers brasileiros. Assim nasceu a LunettiBio, produzida a partir do bagaço e da fibra da cana-de-açúcar. O que antes poderia ser apenas descarte começou a ganhar forma, cor, textura, design e, principalmente, novas histórias. Hoje, essas chapas já estão nas mãos de diversos lunetiers pelo Brasil, sendo transformadas em óculos únicos, feitos com técnica, criatividade e identidade. 
Mas aqui também precisamos ter cuidado com as simplificações. Sustentável não é sinônimo automático de melhor. Um material pode ter uma narrativa ambiental interessante, mas isso não significa necessariamente que seja mais resistente, mais confortável, mais durável ou melhor em todo o seu ciclo de vida. Sustentabilidade também precisa passar pela régua da técnica. Não basta ser verde. Precisa ser bom.
E também temos o 3D. A fabricação aditiva abre possibilidades que vão muito além de produzir uma armação de maneira diferente. Ela permite trabalhar geometrias complexas, prototipagem, personalização e novas possibilidades de produção. E existe algo ainda mais interessante: a tecnologia permite trabalhar leveza, resistência, flexibilidade, durabilidade e, ao mesmo tempo, personalização. Mas existe outro detalhe que me chama ainda mais atenção: a produção sob demanda. E quando falamos de matéria-prima, a impressão 3D também abre uma conversa importante sobre desperdício, reaproveitamento e longevidade. É uma mudança de lógica: menos produto parado, menos desperdício e mais produção de acordo com a necessidade real.
Tecnologia vestível 
E quando pensamos que a história dos óculos já estava suficientemente sofisticada, surge outro capítulo: os smartglasses. Saúde, moda e tecnologia, os óculos além de compensar ou proteger a visão, agora podem incorporar tecnologia, sensores, câmeras, áudio, conectividade e novas formas de interação com o ambiente digital. Aqui acontece uma mudança conceitual enorme. Durante séculos, os óculos foram essencialmente um objeto óptico. Depois tornou-se também objeto de moda. Ganhou design, identidade, tecnologia e agora começa a se transformar em uma tecnologia vestível. É a R-Evolução. O mesmo objeto que um dia foi produzido com materiais naturais pode hoje carregar tecnologia conectada.
Mas, afinal, como nascem os óculos? Essa é uma pergunta que deveria fazer parte da conversa de qualquer profissional que trabalha com eyewear, porque existe um enorme caminho entre uma matéria-prima e aquilo que encontramos pronto em uma vitrine. Em uma armação de acetato, por exemplo, podemos ter design, modelagem, seleção da placa, corte e usinagem, construção do frontal e das hastes, inserção de componentes, colagem, montagem, polimento, acabamento e controle de qualidade. Ou seja, entre a placa e o rosto existe uma trajetória ou melhor, uma história. Existe máquina, tecnologia, precisão, conhecimento e, em muitos casos, a mão humana. É por isso que duas armações feitas aparentemente com o mesmo material podem entregar experiências completamente diferentes. A matéria-prima é importante, mas aquilo que fazemos com ela também é.
É nesse ponto que surge outro movimento fascinante do mercado: a valorização do artesanal. Durante décadas, a indústria buscou escala, velocidade, eficiência e repetibilidade, e continua buscando. Ao mesmo tempo, existe um consumidor cada vez mais interessado justamente naquilo que a produção em massa tem dificuldade de entregar: singularidade. Uma peça feita manualmente, um acabamento diferenciado, uma matéria-prima especial, uma história, uma origem, uma pessoa por trás da criação ou simplesmente um produto que não parece ter sido feito para todo mundo. É nesse território que encontro uma conexão direta com o conceito de Alfaiataria Eyewear, que venho defendendo no mercado. Na alfaiataria tradicional, primeiro vem a pessoa e depois vem a peça. Se trouxermos esse pensamento para os óculos, a lógica também pode mudar. Em vez de pensar apenas em produto e depois procurar quem vai utilizá-lo, podemos partir da pessoa, entender sua necessidade, identidade e comportamento e, a partir daí, pensar em projeto, material, construção e finalmente nos óculos. É uma mudança de mentalidade: os óculos deixam de ser apenas um objeto produzido para alguém e passa a ser pensado a partir de alguém.
Letramento Eyewear
Mas onde está o verdadeiro valor de tudo isso? Essa talvez seja a pergunta mais importante. Podemos falar durante horas sobre acetato, titânio, polímeros, impressão 3D, fabricação artesanal e smartglasses. Mas, no final, o consumidor não compra uma ficha técnica. Ele compra conforto, estética, identidade, tecnologia, história, desejo e, principalmente, uma solução que precisa fazer sentido quando chega ao rosto. É por isso que acredito que o profissional óptico precisa desenvolver uma nova competência: o letramento eyewear. Não basta saber que determinada armação é de acetato. É preciso entender por que aquele acetato faz diferença. Não basta saber que uma armação é de titânio. É preciso compreender o que aquela escolha proporciona. Não basta apresentar uma armação 3D. É preciso explicar como aquela tecnologia muda a experiência. E não basta vender um smartglass. É preciso compreender o comportamento e as necessidades do consumidor que vai utilizá-lo.
Informação técnica só vira valor quando conseguimos traduzi-la. Em vez de simplesmente dizer &ldquoessa armação é de acetato&rdquo, podemos explicar como aquele material permite determinada espessura, transparência, profundidade de cor ou acabamento. Em vez de simplesmente dizer &ldquoessa armação é de titânio&rdquo, podemos mostrar como a escolha daquele material contribui para leveza, resistência e conforto. É uma mudança pequena na maneira de apresentar o produto, mas enorme na percepção de significado e transformação.
Industrial X Artesanal
E aqui está uma das grandes oportunidades do lojista. A indústria entrega escala, repetibilidade, eficiência e distribuição. O artesanal entrega singularidade, tempo, personalização e história. Não é uma guerra entre indústria e artesanato. É uma questão de compreender que existem diferentes produtos para diferentes pessoas e diferentes momentos de consumo. O futuro não será necessariamente de um lado ou de outro. Será de quem souber fazer a curadoria dessas possibilidades.
Por isso, o lojista não precisa ter todos os materiais. Precisa conhecer profundamente os materiais que escolheu ter. Não precisa vender todos os tipos de armação. Precisa entender por que determinadas armações estão na sua loja. Não precisa simplesmente mostrar produto. Precisa contar a história por trás do produto. Quando você olha uma armação na vitrine, está olhando para o resultado final. O lojista precisa aprender a enxergar tudo aquilo que o consumidor ainda não vê.
E esse é o movimento que eu gostaria de propor: conhecer mais para atender melhor. Conhecer materiais, processos, fabricantes, designers, tecnologias e histórias. E, acima de tudo, conhecer as pessoas que vão vestir esses óculos. Porque quando você conhece mais, consegue fazer uma curadoria melhor. Quando faz uma curadoria melhor, consegue recomendar melhor. Quando recomenda melhor, cria uma experiência melhor. E quando você cria uma experiência melhor, você não participa da guerra de preço. E porque assim criamos uma nova cultura, do conhecimento, da história, da experiência e do significado.
Talvez o grande movimento do lojista não seja simplesmente aumentar o número de produtos. Talvez seja aumentar o conhecimento sobre os produtos que possui. Uma óptica não deveria ser apenas um lugar onde existem muitos óculos aleatórios. Deveria ser um lugar onde existem boas escolhas. E isso é curadoria.
Quando olho para a trajetória dos óculos, vejo muito mais do que uma evolução de materiais. Vejo uma evolução de significado. O que começou como uma necessidade funcional ganhou design. O design ganhou moda. A moda ganhou identidade. A identidade ganhou personalização. A personalização encontrou a tecnologia. E a tecnologia está transformando os óculos em algo que pode ir muito além daquilo que conhecemos.
Por isso, talvez a grande pergunta para o mercado óptico não seja simplesmente "qual será o próximo material?". Talvez seja: qual será o próximo significado dos óculos?
Podemos trocar o acetato. Podemos trocar o metal. Podemos trocar o processo. Podemos trocar a tecnologia. Mas uma coisa permanece: os óculos continuarão ocupando o lugar mais importante da nossa imagem: o rosto. E justamente por isso continuará sendo uma peça de identidade, expressão, comunicação e, cada vez mais, significado.
Do chifre ao 3D. Do artesanal aos smartglasses. Não estamos apenas acompanhando a evolução dos óculos. Estamos diante de uma verdadeira R-Evolução.
Os óculos mudaram. O consumidor mudou. E a nossa forma de pensar o mercado também precisa mudar.
Depois de quase 25 anos vivendo o mercado, aprendi que quem fica olhando apenas para o que já existe acaba disputando o que todo mundo já está disputando. Quem aprende a enxergar novos ângulos, começa a criar novas possibilidades.
Por isso, eu não quero apenas acompanhar a evolução dos óculos. Quero continuar fazendo parte dela, provocando perguntas, conectando pessoas, descobrindo novos caminhos, criando movimentos e ajudando o nosso mercado a enxergar novos ângulos.
Porque, no final das contas, talvez essa seja a verdadeira R-Evolução.
SerjãOÓptico
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